Primeiro, entenda o processo

Ao iniciar um estudo de um projeto de instrumentação, o Processo costuma exigir atenção.
Geralmente dirigimos o foco para os instrumentos, deixando de lado outras etapas.
Procuramos os PTs, TTs, FTs, LTs, controladores, válvulas de controle e demais elementos da instrumentação.
Mas existe uma etapa anterior no Processo.
Muitas vezes, ela é deixada de lado.
Entender o Processo no qual esses instrumentos estão inseridos. Isso facilita a compreensão do contexto.
Antes de perguntar “qual instrumento está instalado aqui?”, precisamos entender “o que está acontecendo aqui?”
Essa mudança de abordagem é fundamental.
Comece pelo processo, não pelo instrumento
Imagine que você recebeu a documentação de uma nova instalação.
Antes de analisar os detalhes da instrumentação, procure responder algumas perguntas básicas:
- O que entra no processo?
- O que acontece com o fluido ao longo do processo?
- Quais equipamentos participam dessa operação?
- Qual é a sequência operacional?
- O que sai do processo?
Essas perguntas parecem simples, mas ajudam a construir uma visão inicial do funcionamento da instalação.
O objetivo, neste primeiro momento, não é identificar todos os instrumentos.
É conseguir explicar, com suas próprias palavras, como o processo funciona.
Um exemplo simples
Para acompanhar nosso estudo, vamos utilizar um processo fictício que será retomado nos próximos capítulos.
Imagine a seguinte sequência:
Tanque → Bomba → Trocador de calor → Linha de saída

Podemos começar fazendo uma leitura puramente de processo.
O tanque recebe e mantém o fluido armazenado.
A bomba promove o deslocamento desse fluido para a etapa seguinte.
O fluido passa então pelo trocador de calor, onde ocorre uma transferência de calor, modificando sua condição térmica.
Depois disso, o fluido segue pela linha de saída para a próxima etapa do processo.
Observe que conseguimos explicar essa sequência sem mencionar nenhum instrumento.
E esse é exatamente o exercício que queremos desenvolver.
Mas por que isso é importante?
Porque a instrumentação não existe de forma isolada.
Ela é aplicada para obter informações sobre o processo, acompanhar suas condições operacionais, permitir ações de controle e atender às necessidades de segurança e operação, conforme a filosofia definida para a instalação.
Portanto, quando encontramos um instrumento em determinado ponto, devemos procurar entender primeiro qual é a necessidade do processo naquele local.
Por exemplo:
Se existe um tanque, pode ser necessário conhecer sua condição de nível.
Se existe uma bomba, determinadas condições de pressão ou vazão podem ser relevantes para sua operação.
Se existe um trocador de calor, a temperatura pode ser uma variável importante para o processo.
Perceba a sequência de raciocínio:
Processo → necessidade → variável → função da instrumentação
E não simplesmente:
Desenho → instrumento → TAG
Essa diferença muda completamente a forma de estudar um projeto.

O primeiro exercício: Entenda o processo com sua visão.
Ao analisar uma instalação pela primeira vez, tente fazer um exercício simples.
Feche temporariamente a atenção sobre os instrumentos e procure descrever o processo:
“O fluido entra no tanque, é direcionado para a bomba, segue para o trocador de calor e depois deixa essa etapa pela linha de saída.”
Se você consegue explicar essa sequência, já começou a construir uma visão de processo.
A partir daí, podemos começar a perguntar:
O que precisa ser acompanhado em cada etapa?
Quais variáveis são importantes?
Existe alguma variável que precisa ser controlada?
Existe alguma condição que precisa gerar alarme ou proteção?
Agora a instrumentação começa a fazer sentido.
O processo é o contexto da instrumentação
Um mesmo tipo de variável pode ter funções diferentes dependendo do ponto onde é medida e da necessidade do processo.
Por isso, simplesmente reconhecer que determinado instrumento mede pressão, temperatura, vazão ou nível não significa que já compreendemos sua função no projeto.
Precisamos saber:
Onde está instalado?
O que está acontecendo naquele ponto?
Por que essa variável é importante?
O que será feito com essa informação?
Essas perguntas serão fundamentais nos próximos capítulos.
Um método simples para começar
Quando receber a documentação de um projeto, antes de mergulhar diretamente nos instrumentos, procure seguir esta sequência:

1. Identifique o processo
Entenda qual operação está sendo realizada.
2. Identifique os equipamentos
Observe tanques, bombas, vasos, trocadores e demais equipamentos envolvidos.
3. Siga o caminho do fluido
Entenda a origem, o destino e a sequência entre os equipamentos.
4. Observe as etapas do processo
Procure entender o que acontece com o fluido em cada etapa.
5. Identifique as variáveis importantes
Pergunte onde pressão, temperatura, vazão ou nível podem ser relevantes.
6. Só então comece a olhar para a instrumentação
Agora procure entender como o projeto representa a medição, o controle, o monitoramento e as demais funções necessárias.
Esse método evita que a análise comece pelo instrumento e perca o contexto do processo.
Uma pergunta para levar para o próximo capítulo
Ao final desta primeira etapa, você deve conseguir olhar para um processo e responder:
“O que está acontecendo aqui?”
Antes de responder:
“Qual é o instrumento instalado aqui?”
Essa é a mudança de perspectiva que queremos desenvolver ao longo desta série.
Primeiro entendemos o processo. Depois entendemos a necessidade. E então começamos a compreender a instrumentação.
No próximo capítulo, vamos avançar um passo:
Como identificar os equipamentos, as linhas e o sentido do processo para construir uma visão operacional da instalação?
Projeto de Instrumentação: Conheça os Principais Documentos — Introdução
